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É preciso esclarecer que a essência da universidade, o que lhe concede dignidade, o impulso maior que lhe dá vida, é, sempre foi e sempre será a inquietação da pesquisa. Construir conhecimento é a alma da universidade. Mas é preciso reconhecer a urgência da superação da sua “tradição endógena”
A Universidade, comprometida com o seu tempo e com o seu lugar, depende mais do ambiente público em que existe do que do ambiente pedagógico artificialmente criado dentro de seus muros.
Desde então, uma mudança pedagógica silenciosa é operada pelo crescente envolvimento de estudantes e de docentes com a extensão universitária. Novos perfis discentes e docentes começam a ser engendrados, como também modos muito mais complexos e eficazes de organização do fazer universitário, maiores abertura e diversidade de modelos pedagógicos.
Decorre também uma recriação da ciência, muito mais comprometida com a ética, muito mais aberta ao reconhecimento de outros saberes, disposta ao diálogo, que admite a convivência ativa com outros conhecimentos.
Boaventura Santos afirma que “
a universidade não só participou na exclusão social das raças e etnias ditas inferiores, como teorizou a sua inferioridade, uma inferioridade que estendeu aos conhecimentos produzidos pelos grupos excluídos em nome da prioridade epistemológica concedida à ciência”.
Contrapõe-se a esse modelo de universidade aquela que busca, pela extensão, a participação ativa na construção da coesão social, no aprofundamento da democracia, na luta contra a exclusão social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade cultural; que apóia e facilita a resolução dos problemas da exclusão e da discriminação sociais, que da voz aos grupos excluídos e discriminados.
A expressão e a pulsação de uma universidade que resolveu se intrometer na vida, comprometendo-se com ela. Que acolhe suas urgências e as transforma em sua motivação para a pesquisa. Que assume relação emancipatória com a sociedade com a qual interage. Que constrói sujeitos de direitos nessa relação. Que sabe reconhecer que a “indisciplina da extensão” – no sentido de que rompe com as disciplinas da sala de aula - é essencial na formação de sujeitos críticos e cidadãos conscientes, além de competentes profissionais.
Cabe-lhe, assim, buscar conhecer esses novos estudantes, “diagnosticar suas características socioculturais e econômicas, incorporá-los ao mundo acadêmico de forma protagonista e, principalmente, estimular seu envolvimento em ações coletivas em seus territórios de origem são iniciativas que devem ser encaminhadas de forma sistemática e ordenada”, como propõem o Programa Conexões de Saberes: diálogos entre a universidade e as comunidades populares e o Programa Escola Aberta.
Dentro dessa política universitária o Programa Conexões de Saberes teve início na
Universidade de Brasília em agosto de 2005 e o Programa Escola Aberta no ano de 2007, contando atualmente com 57 estudantes de graduação de diferentes cursos, selecionados a partir de questionário e entrevistas e beneficiados com bolsas de extensão.
Ambos os programas buscam acolher os estudantes em suas instituições, destinando lhes bolsas de extensão, para que, de um lado, protagonizem ações de ensino/pesquisa/extensão junto às comunidades de origem. Por outro, para que estejam inseridos em atividades acadêmicas voltadas para a avaliação e proposição de políticas de acesso e permanência plena nas universidades federais direcionadas aos estudantes de origem popular, que valorizem suas trajetórias escolares e existenciais e os saberes daí decorrentes.
(Chalub, L., Makiuchi, M.F.R, Labrea, V. V., Zaneti I., Kornijezuk, N. A ecologia dos saberes e a reinvenção da extensão universitária)